3. BRASIL 29.8.12

1. AS DUAS VERSES DA JUSTIA
2. A VERDADE PUNIDA
3. O GRANDE ERRO DAS COTAS
4. EM BUSCA DO MELHOR
5. INACREDITVEL!
6. ELE J DEU A LARGADA

1. AS DUAS VERSES DA JUSTIA
Relator e revisor admitem que o mensalo foi abastecido por dinheiro pblico, condenam os primeiros rus, mas divergem quanto  participao de petista.
LAURA DINIZ

     Protagonista do maior escndalo de corrupo poltica da histria do pas, o PT sempre negou a existncia do mensalo com base em dois argumentos. H sete anos o partido repete que no houve desvio de recursos pblicos. H sete anos insiste que o dinheiro providenciado pelo operador Marcos Valrio apenas abasteceu sua contabilidade clandestina de campanha, o chamado caixa dois, mas jamais financiou uma organizao criminosa especializada em comprar, no Congresso, votos favorveis ao ento presidente Lula. O PT  segundo o mantra cunhado por seu lder maior  s fez aquilo que todos os partidos fazem, valendo-se de recursos obtidos legalmente na iniciativa privada. Pois na semana passada, em apenas 72 horas, o primeiro desses dois pilares da defesa petista comeou a ruir durante o julgamento do mensalo no Supremo Tribunal Federal (STF). Os ministros Joaquim Barbosa, relator, e Ricardo Lewandowski, revisor, atestaram que pelo menos 77 milhes de reais foram surrupiados dos cofres pblicos para alimentar o esquema. A concordncia entre eles tem um peso simblico. O PT esperava que Lewandowski divergisse de Barbosa. Como no o fez, a tendncia  que haja unanimidade entre os ministros sobre o efetivo desvio de verbas da Unio. Ou seja: um duro golpe na defesa petista, mas ainda no decisivo.
     A segunda tese esgrimida pelo partido continua de p e nortear os prximos passos do julgamento: se polticos foram de fato aquinhoados com dinheiro em troca do apoio devotado ao governo Lula. Essa questo  crucial para a definio da existncia ou no de uma quadrilha e da eventual condenao de prceres petistas, como o ex-ministro Jos Dirceu. Na semana passada, ela comeou a ser analisada  e, nesse ponto, Lewandowski cumpriu  risca o roteiro que se autoatribuiu, apresentando-se como o prometido contraponto ao relator. Quando comeou a votar em relao aos crimes imputados ao deputado Joo Paulo Cunha (PT-SP), candidato  prefeitura de Osasco, o revisor foi na direo oposta  do relator. Cunha era a primeira figura importante do PT a ser julgada, e Lewandowski o absolveu de todas as quatro acusaes  justamente o contrrio do veredicto de Barbosa. Os dois divergiram sobre tudo, como se tratassem de casos absolutamente distintos, no que pode ser uma tnica daqui para a frente.
     Segundo o relator, Joo Paulo Cunha manobrou para que a agncia SMP&B  de Marcos Valrio, Cristiano Paz e Ramon Hollerbach  ganhasse uma licitao para cuidar da publicidade da Cmara dos Deputados, da qual ele era presidente na poca. Depois de assinado o contrato, Cunha autorizou a agncia a subcontratar os servios e a ficar com honorrios em cima dos trabalhos que no fez, de acordo com laudos periciais constantes do processo, o que implicou desvio de 1 milho de reais. Como contrapartida, o deputado recebeu 50.000 reais em espcie, sacados de uma conta do Banco Rural e entregues  sua mulher. J Lewandowski rejeitou todas as evidncias, desacreditando, inclusive, as percias. Ele (Joo Paulo) apenas cumpriu seu indeclinvel dever, disse o revisor, fazendo o voto soar como uma homenagem a um devotado servidor pblico. Quando absolveu o petista Luiz Gushiken, ex-ministro das Comunicaes, da acusao de peculato, Lewandowski j havia declarado, sem constrangimento e para surpresa dos colegas, que faria um desagravo ao ru.
     O voto do revisor lavou a alma do deputado, comemorou o advogado Alberto Zacharias Toron, representante de Joo Paulo Cunha. Ao absolver o petista dos crimes de peculato, corrupo passiva e lavagem de dinheiro, o revisor tambm livrou Marcos Valrio e seus dois scios de uma das acusaes de peculato e corrupo ativa. O voto de Lewandowski foi um blsamo para os rus. que j depositam nele as esperanas de absolvio de boa parte dos acusados. Nas conversas reservadas, os advogados de defesa apostam que o revisor condenar os culpados confessos, como o ex-tesoureiro do PT Delbio Soares, e os rus de menor expresso, e tender a inocentar os prceres petistas, como Dirceu e Jos Genoino, ex-presidente do PT, alm dos deputados acuados. Coincidncia ou no, foi justamente para essa direo que a bssola do revisor apontou na semana passada.
     O primeiro voto do relator e do revisor recaiu sobre Henrique Pizzolato, petista de carteirinha e ex-diretor de marketing do Banco do Brasil. Como Barbosa, Lewandowski foi inclemente. Os dois disseram que Pizzolato permitiu o desvio de 74 milhes de reais dos cofres do banco para contas da DNA Propaganda. de Marcos Valrio, Cristiano Paz e Ramon Hollerbach, sem que houvesse definio de quais servios a agncia deveria prestar (veja o quadro na pg. 65). Os repasses antecipados foram depois justificados pela DNA com 80.000 notas fiscais falsas. As percias do processo mostram que, dias depois de entrar nas contas da DNA, o dinheiro do Banco do Brasil foi repassado para outras contas do grupo de Valrio e serviu como garantia de emprstimos no Banco Rural. Em seguida, os recursos foram sacados por polticos da base aliada do PT. Outros 3 milhes de reais foram desviados do BB porque a DNA se apropriou de recursos que deveria ter repassado para o banco. Valrio e seus scios embolsaram o dinheiro, e Pizzolato, a quem cabia fiscalizar a execuo do contrato, fechou os olhos.
     Por todos esses servios prestados, Pizzolato recebeu 327.000 reais em espcie, sacados do Banco Rural. O ex-diretor do BB j tem dois votos a favor de sua condenao por peculato, corrupo passiva e lavagem de dinheiro. Valrio e seus scios foram condenados por Barbosa e Lewandowski por peculato e corrupo ativa. Diz o ex-ministro da Justia Miguel Reale Jr., sobre o primeiro pedido de condenao do relator:  um voto duro, porm muito lgico e detalhado. At agora, o ministro fez referncias contnuas a elementos probatrios. Nenhuma das suas acusaes foi genrica. Na quinta-feira, logo depois de Lewandowski votar pela absolvio de Joo Paulo Cunha, o relator avisou que levar ao plenrio as provas dos crimes imputados ao petista. Lewandowski reagiu de pronto, dizendo que pediria, ento, uma trplica. Est desenhado um novo bate-boca entre eles. Por seu comportamento, o revisor chegou a ser admoestado pelo presidente do STF, Carlos Ayres Britto, sobre os limites de funo no julgamento.
     Depois das manifestaes de Barbosa e Lewandowski, os outros nove ministros anunciaro seus veredictos sobre os casos de Pizzolato e Joo Paulo Cunha. Definidas essas questes, o relator apresentar seu parecer sobre os seis captulos restantes do seu voto. O prximo tratar dos emprstimos que o PT e as empresas de Valrio realizaram nos bancos Rural e BMG para justificar o dinheiro desviado dos cofres pblicos. O ltimo e mais importante analisar a denncia de formao de quadrilha, que teria como chefe o ex-ministro Jos Dirceu. No foi  toa que o relator definiu essa ordem de votao  que permite uma exposio mais clara e objetiva daquilo que a procuradoria denunciou como uma sofisticada organizao criminosa. No foi  toa que a defesa  e tambm o ministro Lewandowski  estrilou contra ela. 

A ORIGEM DO DINHEIRO
Os magistrados descreveram o caminho dos 78 milhes de reais que saram dos cofres pblicos para alimentar o esquema de corrupo
As agncias de publicidade de Marcos Valrio receberam:
BANCO DO BRASIL: Fundo Visanet - 74 milhes de reais por servios no realizados; Bnus de volume - 3 milhes de reais de bonificaes apropriadas indevidamente.
CMARA DOS DEPUTADOS: 1 milho de reais de comisses por servios no realizados.

O QUE J ACONTECEU
O relator Joaquim Garbosa fez uma sntese do processo e o procurador-geral da Repblica, Roberto Gurgel, defendeu em plenrio a condenao de 36 rus. Os advogados tiveram uma hora cada um para defender seus clientes. Joaquim Barbosa comeou a leitura de seu voto e decidiu pela condenao de alguns rus, como o empresrio Marcos Valrio e o deputado petista Joo Paulo Cunha. O relator e o revisor do processo, Ricardo Lewandowski, divergiram sobre a metodologia da votao e trocaram farpas publicamente.

COMO FOI A SEMANA
Joaquim Barbosa concluiu seu voto na segunda-feira. Alm de Marcos Valrio e Joo Paulo, ele considerou culpados por corrupo, peculato e lavagem de dinheiro o ex-diretor do Banco do Brasil (BB) Henrique Pizzolato e dois scios de Valrio. O relator concluiu que o esquema foi abastecido com verba pblica. Na quarta, o revisor Ricardo Lewandowski, que prometera fazer um contraponto ao voto do relator, surpreendeu ao acolher a tese de que o mensalo foi irrigado com verba pblica e seguiu Joaquim Barbosa ao condenar Henrique Pizzolato e Marcos Valrio. Mas, no dia seguinte, Lewandowski divergiu do relator ao defender enfaticamente a absolvio de Joo Paulo.

O que vai acontecer (previso)
O relator pediu para, j no incio da sesso de segunda-feira, rebater os pontos do voto de Lewandowski que divergem de sua deciso. Lewandowski j sinalizou que vai querer direito a trplica e ameaou se ausentar do plenrio caso no seja atendido. Na sequncia, os demais ministros apresentaro seus votos sobre esse primeiro grupo de rus. A ordem de votao  inversa  antiguidade na corte, comeando pela ministra Rosa Weber.


2. A VERDADE PUNIDA
O testemunho de ex-funcionria do Banco do Brasil foi decisivo para desnudar o esquema de desvio de dinheiro pblico para o mensalo. Ela, porm, sofre at hoje as consequncias da ousadia.
GUSTAVO RIBEIRO E HUGO MARQUES

     A publicitria Danevita Magalhes no ajudou a desviar recursos pblicos, como fez o PT e seus dirigentes, no fraudou emprstimos bancrios, como o empresrio Marcos Valrio, nem sacou dinheiro sujo na boca do caixa de um banco, como fizeram os polticos. Sua situao, porm,  bem pior que a de muitos deles. Ex-gerente do Ncleo de Mdia do Banco do Brasil, Danevita foi demitida por se recusar a assinar documentos que dariam ares de autenticidade a uma fraude milionria. Depois de prestar um dos mais contundentes depoimentos do processo  desconstruindo a principal tese da defesa, de que no houve dinheiro pblico no esquema , Danevita passou a sofrer ameaas de morte e no conseguiu mais arrumar emprego. A mulher que enfrentou os mensaleiros cumpre uma pena pesada desde que contou o que sabia, h sete anos. Rejeitada pelos antigos companheiros petistas, vive da caridade de amigos e familiares, sofre de depresso e pensa em deixar o Brasil. S no fez isso ainda por falta de dinheiro.
     O testemunho da publicitria foi invocado vrias vezes no corpo da sentena dos dois ministros que votaram na semana passada. Entre 1997 e 2004, Danevita comandou o setor do Banco do Brasil responsvel pelo pagamento das agncias de publicidade que fazem a propaganda da instituio. Sua carreira foi destruda quando ela se negou a autorizar uma ordem de pagamento de 60 milhes de reais  DNA Propaganda, do empresrio Marcos Valrio. O motivo era elementar: o servio no foi e nem seria realizado. Mais que isso: o dinheiro, antes de ser oficialmente liberado, j estava nas contas da DNA, o que contrariava frontalmente o procedimento do banco. Ela, portanto, negou-se a ser cmplice da falcatrua. Em depoimento  Justia, Danevita contou ainda que ouviu de um dos diretores da DNA que a campanha contratada jamais seria realizada. Como no assinei, fui demitida, lembra. Depois disso, ela no conseguiu mais arrumar emprego e perdeu tudo o que tinha. Saiu de um padro confortvel de vida  incluindo um salrio de 15.000 reais, carro do ano e viagens frequentes  para depender da boa vontade de amigos e morar na casa da filha, que a sustenta. Estou sofrendo as consequncias desse esquema at hoje. O pior  que eu no participei de nada. Voc deveria falar com Dirceu, Lula..., disse.
     Danevita hoje vive reclusa na casa da filha e evita conversar sobre o mensalo. Ela conta que sofreu trs ameaas de morte. Sempre telefonemas annimos, pressionando-a para mudar suas alegaes s autoridades. Seu desespero  tamanho que, em entrevista a VEJA, ela pediu para no ser mais procurada: Peo que me deixem em paz. Eu no tenho mais nada a perder, disse. Danevita credita aos envolvidos no esquema e prejudicados pelo teor do seu testemunho  as dificuldades que tem encontrado no mercado de trabalho. Apesar de um currculo que inclui altos cargos em empresas multinacionais, ela conseguiu apenas pequenos servios. A publicitria no tem dvida de que os mensaleiros a prejudicam, mas no cita nomes. Fico muito magoada com isso. J perdi meu dinheiro e minha dignidade, desabafa. Ela no acredita que o Supremo Tribunal Federal v punir os mensaleiros.
     Situao parecida vive o advogado Joel Santos Filho. Ele foi o autor da gravao do vdeo no qual o ex-diretor dos Correios Maurcio Marinho aparece recebendo propina e contando como funcionava o esquema de arrecadao do PTB. A reportagem, publicada por VEJA em maio de 2005, est na gnese do escndalo. Foi a partir dela que o presidente do PTB, deputado Roberto Jefferson,
revelou a existncia do mensalo. Joel conta que foi chamado por um amigo empresrio, que tinha os interesses comerciais prejudicados nos Correios, para colher provas de que l funcionava um esquema de extorso. Pelo trabalho de filmagem, no ganhou nada, e ainda perdeu o que tinha. Durante as investigaes do mensalo, Joel teve documentos e computadores apreendidos  e nunca devolvidos. Apesar de no ter sido acusado de nada, foi preso por cinco dias e ameaado na cadeia: Fui abordado por outro preso, que disse saber onde minha famlia morava e minhas filhas estudavam. Ele me alertou: Pense no que vai falar, voc pode ter problemas l fora. Joel sustenta sua famlia hoje por meio de bicos. Fiquei marcado de uma forma muito negativa, lamenta.


3. O GRANDE ERRO DAS COTAS
A partir da semana que vem, dependendo de deciso da presidente Dilma Rousseff, uma em cada duas vagas nas universidades federais estar reservada para egressos do ensino pblico, negros, ndios e pardos.  uma forma equivocada de corrigir distores.
JULIA CARVALHO

     Est na mesa da presidente Dilma Rousseff, aguardando sua assinatura, uma lei que vai mudar radicalmente o ensino pblico superior no Brasil  e no necessariamente para melhor. Caso receba a sano presidencial sem vetos importantes, como tudo indica que ocorrer, uma em cada duas vagas nas universidades federais passar a ser preenchida por critrios que desprezam o mrito. Alunos que cursaram o ensino mdio em escolas pblicas tero direito a 120.000 das 240.000 vagas disponveis nas federais. Esse nmero ser distribudo segundo a cor da pele ou a autodeclarada etnia do candidato. Pretos, pardos e ndios, no importa o seu desempenho escolar, passam a ter lugar garantido nos bancos das universidades na proporo da populao verificada pelo Censo do IBGE em cada estado. Metade dessa cota vai para estudantes vindos de famlias de baixa renda.
     O Brasil tem hoje 2341 instituies de ensino superior, pblicas e privadas. Desse total, apenas 59 sero afetadas pela Lei de Cotas  alm das federais, o projeto inclui alguns cursos tcnicos de ensino mdio e profissionalizantes ligados ao Ministrio da Educao. Em termos absolutos,  bem pouco. Ocorre que, juntamente com as universidades pblicas estaduais, as universidades federais so a mais importante usina de descobertas cientficas, conhecimento e pesquisa do Brasil. Vm delas, por exemplo, 86% dos artigos cientficos publicados internacionalmente, segundo dados recentes. Das dez instituies que mais emitiram pedido de patente entre 2004 e 2008, quatro delas eram universidades pblicas  duas federais e duas estaduais. Nenhuma particular entrou no ranking, isso s  possvel porque  para elas que conflui a elite cultural, acadmica, intelectual  e, sim, quase sempre econmica tambm  do pas. Agora, a Lei de Cotas poder desviar esse curso. Em vez de ir para os alunos mais preparados, quase sempre egressos de escolas particulares, metade das vagas caber aos menos preparados, vindos do deficiente ensino pblico.
     A Lei de Cotas, tal como foi enviada para a sano de Dilma Rousseff, no  ruim apenas porque pe em risco a produo de conhecimento no pas e atropela a meritocracia. Ela  ruim tambm porque mascara e fora a perpetuao de um dos problemas mais graves da educao no Brasil: a pssima qualidade das escolas pblicas do ensino mdio e fundamental. Se tivssemos um ensino bsico decente, esses alunos conseguiriam competir de igual para igual com os alunos das particulares. Mas  claro que  mais fcil criar cotas do que investir na base, afirma o economista Claudio de Moura Castro, especialista em educao e articulista de VEJA. 
     Um raciocnio em favor da Lei de Cotas diz que, com essa reserva de vagas, a tendncia ser que muitos pais tirem seus filhos de escolas particulares para coloc-los em instituies pblicas. Isso levaria a um aumento da cobrana de qualidade por parte de uma parcela da populao com maior poder de reivindicao e a uma consequente melhora do ensino. Infelizmente,  pouco provvel que isso ocorra. Na prtica, o efeito da lei ser acabar com a competio  e a comparao  entre as escolas pblicas e privadas. A cada ano, toda vez que saem os resultados dos vestibulares evidencia-se o enorme fosso entre a rede privada e a rede gratuita. Agora, com a vaga em uma universidade garantida para os estudantes das escolas pblicas, perde-se um poderoso mecanismo de presso sobre os governantes pela melhora do ensino pblico.
     A ideia de conceder estmulos aos que sempre viveram em desvantagem  boa e justa. Mas, ainda que se conclua que a universidade  o melhor lugar para essa ao, o critrio racial no  o mais sensato para baliz-la. Nesse caso, muito mais justo seria que se expandisse o alcance do critrio econmico  que na lei atual ficou com apenas um quarto das vagas. Negros pobres e brancos pobres, afinal, tm exatamente as mesmas dificuldades. E os alunos das escolas pblicas no tm mais problemas para entrar nas universidades federais porque so pobres  ou negros, ndios, brancos, amarelos , mas sim porque no conseguem superar a barreira imposta pelo ensino deficiente que receberam. Em vez de corrigir essa questo na base, a Lei de Cotas pe o peso da correo de distores sociais nos ombros da universidade, numa atitude populista que traduz a viso de que a universidade, assim como o conhecimento, no tem importncia.
     H estudos indicando que o desempenho dos cotistas, no fim do curso,  semelhante ao dos alunos que entraram pela via normal. O volume de dados existentes se deve ao fato de que boa parte das universidades pblicas, mesmo antes da lei, j praticava um sistema particular de cotas. Os dados, no entanto, devem ser vistos com ressalvas. As pesquisas que aferem rendimento de cotistas so muito discutveis, porque so feitas pelas prprias instituies interessadas em comprovar que suas polticas funcionam, diz o socilogo Demtrio Magnoli. Para ele,  razovel pensar que alguns poucos alunos fracos em uma sala de aula alcanariam os demais atravs de um esforo maior. Mas, com metade da classe fraca, quem ter de se adaptar sero o professor e o contedo, diz.
     O resultado recm-divulgado do Ideb, o principal termmetro da educao bsica brasileira, mostra que a nota mdia dos estudantes que deixam o ensino mdio foi de 3,4 na rede pblica, ante 5,7 nas escolas particulares  um desempenho quase 70% melhor da parte dos ltimos. O prprio governo parece reconhecer, ainda que implicitamente, o risco que a nova lei impe ao ensino de alto padro no pas. Sob o contestvel argumento de que so vinculadas ao Ministrio da Defesa, e no ao da Educao, instituies de excelncia, como o ITA (Instituto Tecnolgico de Aeronutica) e o IME (Instituto Militar de Engenharia), ficaram livres das cotas. O que mostra que, quando o assunto  srio, o que se leva em conta  mesmo o mrito e a capacidade. 

O CAMINHO DA EDUCAO
COMO  HOJE: 
Vantagem: a seleo respeita a meritocracia. Os que estudam nas melhores escolas entram nas universidades pblicas  na mdia, superiores.
Desvantagem: como as escolas pblicas so fracas, os alunos que saem delas tm pouca chance de entrar nas universidades pblicas, sustentadas com o dinheiro de todos os contribuintes.

COMO VAI FICAR:
Vantagem: o sistema de cotas facilita o acesso dos alunos vindos de escolas pblicas s universidades pblicas.
Desvantagem: alunos menos preparados tm acesso s melhores universidades, o que fere a meritocracia e pe em risco a qualidade da pesquisa acadmica e o nvel do ensino.


4. EM BUSCA DO MELHOR
Depois de meio sculo de aes afirmativas e resultados tmidos, os EUA caminham na direo de uma poltica de cotas baseada no critrio econmico, em vez do racial.
ANDR PETRY DE NOVA YORK

     Adaptando-se o grande escritor russo Leon Tostoi para o campo da diversidade humana, pode-se dizer que pases com populao etnicamente homognea so todos iguais, mas os pases multitnicos so racistas cada um  sua maneira. O racismo no Brasil  diferente do racismo nos Estados Unidos, que  diferente do racismo na frica do Sul. Mesmo dentro dos Estados Unidos, onde a escravido negra deu lugar a dcadas de segregao racial, existe uma diferena. No sul, onde a escravido se concentrou, diz-se que os negros podem chegar perto de quem quiserem, mas no podem subir muito. No norte, os negros podem subir muito, mas no podem chegar perto. Em outras palavras, os brancos sulistas aceitam o convvio dirio com os negros, mas no toleram sua ascenso socioeconmica. Entre os do norte, epicentro do abolicionismo, aceita-se o sucesso dos negros, mas no se tolera a intimidade com eles.
     Com essa histria de escravido e segregao, os Estados Unidos criaram as aes afirmativas, expresso que apareceu pela primeira vez numa medida assinada por John Kennedy, em maro de 1961, por meio da qual se tentava evitar a discriminao racial no emprego. Em 1964, Lyndon Johnson deu forma final s aes afirmativas, proibindo a discriminao racial e ressuscitando a ideia de oportunidades iguais para todos. As universidades americanas, sem que a lei o exigisse, passaram a adotar aes que logo se converteram em cotas raciais, proibidas pela Suprema Corte em 1978. Desde ento, os Estados Unidos aboliram as cotas raciais. So inconstitucionais, porque ferem o princpio da igualdade entre os cidados. Uma universidade, porm, pode considerar a raa de um candidato na hora de selecion-lo entre os inscritos, desde que a raa seja apenas um critrio entre vrios outros.
     Meio sculo depois, as aes afirmativas esto num impasse: os resultados so muito modestos e, portanto, h que encontrar algo melhor. Nas universidades, os negros so mais numerosos do que no passado. Em 1976, eram 9,4% do contingente total de estudantes universitrios. Em 2009, ltimo perodo com dados disponveis, eram 14,3%. Os hispnicos  nome dado aos oriundos de pases da Amrica Latina de lngua espanhola, o que exclui os brasileiros e os espanhis da Espanha  tiveram ascenso parecida.  um sucesso, sem dvida, mas  tmido demais. Alm disso, o sistema no  imune a outros problemas. Um vasto conjunto de pesquisas e estudos sobre as aes afirmativas nos Estados Unidos mostra uma paisagem controvertida:
 os negros tiram notas menores que os brancos na universidade, mas os negros matriculados em instituies de elite se saem melhor do que os negros matriculados em instituies medianas. Mesmo quando ambos tiveram a mesma nota nas provas de acesso;
 o desempenho dos negros na universidade  inferior, e no superior, ao que se poderia esperar deles com base no desempenho escolar que tiveram no ensino mdio, antes da universidade;
 o ingresso de candidatos menos preparados nas universidades fere o princpio da meritocracia, mas no compromete a excelncia acadmica das instituies que os recebem nem amplia o ressentimento racial;
 os negros formados nas universidades de maior prestgio, beneficiados por aes afirmativas, tornam-se profissionais competentes e bem-sucedidos.
     Desde que as aes afirmativas comearam a ser aplicadas, as universidades americanas, mesmo as de maior prestgio, passaram a adotar algum critrio que estimulasse a diversidade racial. H evidncias de que a variedade tnica no cmpus  positiva para todos os estudantes. Quem conviveu num cmpus multitnico entende melhor a perspectiva alheia e tem mais respeito por etnias diferentes da sua. Mas os estudos nessa rea  um de 1999, outro de 2001  no so conclusivos. Ainda assim, o grosso da academia americana trabalha com a ideia de que proporcionar um ambiente de diversidade racial  um objetivo desejvel.
      nas instituies de elite que se d o efeito mais sensvel das aes afirmativas. Um estudo feito em outubro de 2010 mostrou que o hipottico fim das aes afirmativas teria um impacto nfimo no nmero de matrculas de minorias nas universidades medianas, mas produziria um efeito significativo nas cinquenta melhores universidades. Ou seja: aes afirmativas que, por qualquer motivo, excluem instituies de maior prestgio so quase nulidade.
     Examinadas para alm do universo da educao superior, as aes afirmativas tambm tiveram sucesso limitado. Os negros, ainda hoje e apesar da escolha de um presidente negro, compem a camada inferior da sociedade americana: so os menos escolarizados, os mais pobres, os mais vulnerveis. Juntando-se esses resultados ao crescente conservadorismo nos Estados Unidos, as aes afirmativas vm descendo a ladeira do desprestgio. No comeo dos anos 90, muitas universidades comearam a puxar o freio nas iniciativas pr-minorias. Em 1996, eleitores da Califrnia aprovaram a Proposio 209, proibindo universidades e rgos pblicos de considerar a raa na hora de contratar ou matricular algum. A Suprema Corte, com composio mais conservadora, tambm vem proibindo certos programas de aes afirmativas. A Universidade de Michigan, que admitia estudantes com base num teste de 150 pontos, foi proibida de conceder 20 pontos de graa aos candidatos de minorias. Ainda neste ano, a Suprema Corte julgar um caso da Universidade do Texas, e no so pequenas as chances de que a deciso seja um duro golpe para os que defendem as aes afirmativas.
     No fim do ano passado, tentando dar alguma clareza a um assunto controvertido e crivado de decises judiciais, o governo do presidente Barack Obama baixou uma orientao s universidades. Ela sugere que, alm de olharem a raa, as universidades estabeleam critrios socioeconmicos na hora de buscar diversidade racial. Faz sentido. As aes afirmativas com base no conceito racial no funcionam bem nos Estados Unidos, afirma Richard Kahlenberg, da Century Foundation, um dos maiores especialistas no assunto do pas. Estudos sugerem que os obstculos para um estudante se sair bem academicamente so fundamentalmente econmicos, e no raciais ou tnicos.
     Em 2010, dois pesquisadores, Anthony Carnevale e Jeff Strohl, mediram as notas que brancos e negros tiram em testes de aptido acadmica e, em seguida, estudaram as razes dessa diferena. Descobriram que, num universo em que os brancos superam os negros por 784 pontos, apenas 56 pontos decorrem da raa e 399 so resultado de condies socioeconmicas (veja o quadro na pg. 75). Kahlenberg interpreta os dados da pesquisa: Isso significa que os obstculos socioeconmicos so sete vezes mais severos do que os raciais. Se as escolas criassem um sistema com maior peso para classe social, o sistema seria mais justo, meritocrtico e mais efetivo  porque resultaria, tambm, em diversidade racial. No fazem isso porque, ao admitirem estudantes mais pobres, as universidades teriam de dar mais bolsas de estudo. Alm de sair mais barato, o critrio de raa d mais ibope do que o de classe nos Estados Unidos. Alm, claro, de ser mais visvel na fotografia. A resistncia aos critrios de classe remete  adaptao tolstoiana de que cada sociedade multitnica  mesmo peculiar em seu racismo. 

DIFERENA DE CLASSE
A situao socioeconmica dos estudantes  mais relevante para explicar a diferena de desempenho acadmico do que a questo racial.
Estudantes brancos abastados e egressos de escolas particulares: 1328 pontos (Pontuao mdia obtida no teste de aptido acadmica, conhecido pela sigla SAT).
Estudantes negros, pobres e egressos de escolas pblicas: 544 pontos (Pontuao mdia obtida no teste de aptido acadmica, conhecido pela sigla SAT).
DIFERENA: 784 pontos
Destes, 56 pontos se devem  cor da pele e 399  condio socioeconmica.
Os demais pontos decorrem de uma srie de outros fatores.


5. INACREDITVEL!
Dono de um declarado patrimnio de 20 bilhes de reais, ex-senador concorda em devolver 468 milhes desviados das obras do TRT de So Paulo.

     O ex-senador Luiz Estevo vai entrar para a histria pela segunda vez. Acusado de desviar 169 milhes de reais das obras do Tribunal Regional do Trabalho de So Paulo (TRT), ele teve o mandato cassado em 2000 e, depois, foi condenado pela Justia a 31 anos de priso  um caso nico, indito pelo desfecho.
     Na semana passada, Estevo assinou um surpreendente acordo com a Advocacia-Geral da Unio. Ele concordou em devolver aos cofres pblicos o dinheiro desviado do TRT, equivalente hoje a quase meio bilho de reais, j acrescidos os juros, a correo monetria e as multas. Se no for apenas mais um caso isolado, a medida pode representar um marco nas relaes sempre amistosas entre o poder pblico e a corrupo. Os manuais de combate ao crime so unnimes em afirmar que o ataque ao bolso quase sempre  a melhor maneira de inibir a ao de criminosos. Nos ltimos doze anos, o torniquete da Justia impediu o senador de desfrutar plenamente as vantagens de sua impressionante fortuna de declarados 20 bilhes de reais, que inclui mais de 1000 imveis comerciais e residenciais, empresas, carros importados e fazendas  e que o coloca entre os homens mais ricos do mundo.
     Na tentativa de reaver o dinheiro desviado, a Unio conseguiu o bloqueio de todos os bens do ex-senador e de seus filhos, alm de confiscar a receita oriunda de aluguis e do caixa das empresas. Com o acordo, Estevo se compromete a devolver 468 milhes de reais e, em contrapartida, ter parte de seu patrimnio desbloqueada. O ex-senador entregar de imediato 80 milhes. O restante ser quitado em 96 parcelas mensais.  a maior recuperao de ativos do pas num caso de corrupo. E tenho certeza de que representa uma das maiores recuperaes do mundo, comemora Andr Mendona, diretor do departamento de patrimnio da AGU. O acordo, porm, no significa uma confisso de culpa. Estevo continua alegando inocncia. Vou pagar porque sofri coao.  o meu resgate, afirma. Ele reclama, sobretudo, do bloqueio dos bens de quatro dos seus filhos: Esse tipo de coisa remonta aos tempos do Brasil colnia, quando se punia algum estendendo a punio a filhos e netos.
     Quando perdeu o mandato, Estevo teve como principal algoz o ento tambm senador Jos Roberto Arruda, que acabou renunciando logo depois da cassao do colega, por ter violado o painel de votao. Na semana passada, Arruda foi condenado a pagar uma multa de 100 vezes o salrio de parlamentar da poca, o equivalente a 1,1 milho de reais. A defesa do ex-senador j anunciou que vai recorrer. Ele sonha em voltar para a poltica como deputado federal em 2014. Luiz Estevo, no. Ainda aguarda a deciso final da Justia sobre a sua condenao. Meu projeto  pegar meu patrimnio e empreender, afirma. Afinal, ele s tem agora 19,5 bilhes de reais..
ADRIANO CEOLIN


6. ELE J DEU A LARGADA
Eduardo Campos usa a eleio municipal como preparao de sua candidatura a presidente em 2014 e atrai a ira do PT.
OTVIO CABRAL E DANIEL PEREIRA

     H duas semanas, o governador de Pernambuco e presidente do PSB, Eduardo Campos, deixou o Recife e desembarcou no interior de So Paulo. Visitou cinco cidades, nas quais participou de comcios, carreatas, encontros com empresrios e pediu votos para candidatos de seu partido a prefeito. De l, seguiu para Mato Grosso, para reforar a campanha de Mauro Mendes  prefeitura de Cuiab. Na semana passada, quando comeou a ser transmitida a propaganda eleitoral de rdio e TV, ele foi a estrela dos programas de uma centena de candidatos em todas as regies do Brasil. A eleio  municipal, mas os planos so nacionais. Eduardo quer utilizar a campanha deste ano para tornar seu nome conhecido em todo o pas, principalmente no Sul e no Sudeste. E, com isso, pavimentar seu caminho para a disputa presidencial de 2014. A amigos, no esconde que essa campanha  seu aquecimento. E que  muito improvvel no disputar a Presidncia em 2014. O PT de Dilma Rousseff e Lula j percebeu essa movimentao. E elegeu Eduardo o adversrio a ser derrotado.
     O confronto iminente entre Lula e Eduardo surpreende porque eles so historicamente aliados. Desde 1989, o PSB, que teve como principal lder Miguel Arraes (av de Eduardo), apoiou as candidaturas de Lula e de Dilma. H dois meses, porm, eles comearam a se afastar. A face pblica do distanciamento est nas campanhas a prefeito de Belo Horizonte, Recife e Fortaleza. Na primeira, o PT rompeu o apoio  reeleio do prefeito Marcio Lacerda, do PSB, para apoiar a candidatura de Patrus Ananias. Nas duas capitais nordestinas, foi o PSB que deixou de lado o apoio ao PT para lanar nomes prprios. Nos bastidores, cada lado tem suas razes. O governador considera que pode ser uma terceira via em 2014, colocando-se como alternativa ao PT, que tentar a reeleio de Dilma, e ao PSDB, que deve lanar o senador mineiro Acio Neves. Foi com essa estratgia que ele chegou ao governo, em 2006, derrotando petistas e tucanos. A avaliao de Eduardo  que Dilma ainda  a favorita na disputa, mas o agravamento da crise econmica pode corroer seu prestgio. E que a oposio vem minguando a cada eleio e dificilmente voltar to cedo ao Palcio do Planalto. Se continuar amarrado ao PT, ele jamais ter apoio para ser candidato a presidente. Por isso, decidiu testar agora seu voo-solo.
     O PT percebeu as movimentaes do antigo aliado, assustou-se e resolveu reagir. Em duas conversas recentes, Lula afirmou que Eduardo j est em campanha, costurando apoio com empresrios e partidos, e que ser o principal adversrio do PT em 2014. Lamentavelmente, no estamos mais do mesmo lado, mas entendo a posio dele, declarou a um ex-ministro. Lula considera que Eduardo pode ter o apoio j no primeiro turno de trs partidos que esto na base de Dilma  PSD, PR e PTB , o que lhe garantiria um bom tempo de TV. Ele se preocupa ainda com a aproximao crescente do governador com empresrios de peso e com caciques tucanos, especialmente Acio. Lula duvida que Acio concorra  Presidncia. Acha at que ele trabalhar para costurar o apoio dos tucanos a Eduardo  pelo menos no segundo turno. O Eduardo est ocupando um vcuo de poder que existe na oposio, disse Lula a petistas.
     Mas Acio tem desmentido essa suposio. J gravou depoimentos para mais de oitenta candidatos, percorreu o interior de Minas, foi a Curitiba e nesta semana iniciar uma caravana pelo Nordeste. Aes de quem quer ser candidato a presidente. No h relao direta entre a disputa municipal e a eleio presidencial. Mas  hora de os lderes arregaarem as mangas para fortalecer seus partidos para 2014, afirma o senador.
     Foi com base nessa anlise que Lula articulou uma reao imediata a Eduardo. Ele participar pessoalmente das campanhas no Recife e em Belo Horizonte, a fim de derrotar os candidatos do governador. Tambm tenta convencer Dilma a reforar a contraofensiva. Foi ela que costurou o apoio do PMDB ao PT em Belo Horizonte. E que determinou ao PT que ratificasse, h duas semanas, um acordo que garante ao PMDB ocupar a presidncia da Cmara a partir do ano que vem. Com esse movimento, Dilma amarra o partido  sua chapa  reeleio. A presidente, graas ao aumento da concorrncia na eleio presidencial, tambm pode rever sua inteno de no participar da propaganda de candidatos do PT e de partidos aliados a prefeito. Propagandas que de gratuitas tm apenas o nome, j que custam mais de 606 milhes de reais em isenes fiscais s emissoras que as retransmitem. At 4 de outubro, seguir o desfile de polticos na televiso pedindo votos a candidatos a prefeito. Mas alguns desses atores estaro pensando bem mais na frente, na eleio para presidente em 2014. 

